O Algarve é o destino do mês de novembro da Ambitur. Num roteiro de cinco dias elaborado pelo Turismo do Algarve, percorremos a região de lés a lés, passando pelos 16 concelhos deste vasto território. De Alcoutim ou Vila Real de Santo António até Vila do Bispo ou Aljezur, atravessámos o litoral e o interior, e conhecemos iniciativas e projetos turísticos que contribuem para que o Algarve continue a ser hoje um destino que merece ser visitado ao longo de todo o ano.
São Brás de Alportel é o nosso destino de hoje, no sotavento algarvio. E aqui o caminho leva-nos até à Eco-Fábrica de Cortiça Francisco Carrusca, uma empresa familiar que remonta ao século XIX e que, além da preparação da cortiça em prancha, abre também as suas portas para que os visitantes possam conhecer de perto o processo de extração e transformação deste produto, um trabalho que decorre ao longo dos 12 meses do ano.

É Sofia Carrusca, diretora da Algarve Rotas/ Picturesque Journeys, empresa criada pela própria em 2012, que faz as honras da casa e nos leva a explorar os recantos desta fábrica. Filha do atual proprietária da Ecocork, Francisco Carrusca, Sofia acabou por se deixar apaixonar por esta tradição familiar que já, pelo menos, dos tempos dos bisavós e que tem vindo a atravessar gerações em busca de um elevado padrão de qualidade no fabrico da cortiça. Licenciada em Património Cultural, a co-diretora da Eco-Fábrica de Cortiça Francisco Carrusca teve avós a trabalharem como almocreves, ou seja, a trabalharem no transporte da cortiça, ou como operários em unidades fabris. O que significa que a indústria corticeira está muito enraizada na família Carrusca, sempre na região do Algarve. No final da licenciatura, Sofia fez um trabalho sobre o impacto desta indústria em finais do século XIX e inícios do século XX, em São Brás de Alportel. E daqui ingressou, em 2009, na Rota da Cortiça, onde permaneceu até 2012. Com a sua empresa procura oferecer um turismo industrial, criativo, ligado à temática da cortiça, sugerindo percursos pedestres e utilizando a matéria-prima cortiça para trabalhar com artesãos.
Se é verdade que, em tempos, existiam 22 fábricas de cortiça ativas no concelho de São Brás de Alportel (um inventário de 1992 indica isso mesmo), hoje a Ecocork acaba por ser a única a laborar no Algarve, conta-nos Sofia Carrusca, e com vontade de continuar assim por muitos e bons anos. Importante é, sem dúvida, a integração na Rota do Turismo Industrial do Algarve, algo que permite não só a sua promoção a nível nacional, como internacional, e que tem chamado a atenção de muitos visitantes estrangeiros. Este é, aliás, o principal público da fábrica, sendo os portugueses visitantes residuais, sobretudo durante o mês de agosto.
Mas concentramo-nos agora no interior da Eco-Fábrica de Cortiça Francisco Carrusca que já se encontra localizada em São Brás de Alportel desde 1998. Sendo esta uma fábrica que prepara a cortiça, sem a transformar, a nossa anfitriã explica-nos todo o processo. A cortiça, o produto maior do montado de sobro, é uma matéria-prima vegetal com características ambientais invejáveis, desde logo sendo um recurso renovável, reciclável, não tóxico e durável. Tratando-se de uma atividade com períodos de maior atividade ao longo do ano, é nos meses de verão, sobretudo julho e agosto, que os trabalhadores vão para o campo e aí fazem a extração da cortiça, já seca, do sobreiro, com o auxílio de um machado, sem danificar o tronco, um trabalho manual que requer cuidados.
A cortiça chega em bruto à fábrica, sem ainda ter sido separada por marcas ou calibres. Numa primeira etapa, ela é cozida numa caldeira durante cerca de uma hora a 100º, ficando assim bastante flexível e perdendo a forma original do tronco. É nesta altura que também se realiza a primeira desinfeção. Segue-se então o período de estabilização da cortiça que, no inverno, pode levar uma ou duas semanas, e menos no tempo quente. A verdade é que ainda tem de estar um pouco húmida, explica Sofia, para poder ser selecionada pelos operários. Estes, cada um com a sua banca de trabalho, faz uso de duas facas para dois processos distintos. Com a faca de traçar consegue ver a espessura da prancha de cortiça, e é assim possível selecioná-la pelas suas diferentes espessuras e qualidades. É altura de recorrer à faca de facear para “tirar as faces à cortiça”, detalha a responsável, daqui resultando as aparas que são posteriormente utilizadas para fazer a moagem e vendidas a outras fábricas, para fazer isolamento térmico ou acústico, ou para usos desportivos.
Este é um trabalho inteiramente manual e os operários têm ainda de verificar a qualidade da cortiça, verificando, visualmente, se, por exemplo, esta não tem manchas amarelas (um fungo que dá mau sabor ao vinho), manchas verdes (elevado teor de humidade), cobrilha (um inseto que faz canais na cortiça), formiga, entre outros problemas que têm de ser identificados para que se possa separar as “partes boas das partes más”.
Este é um processo demorado já que uma mesma prancha de cortiça pode ser selecionada três ou quatro vezes, mas é fundamental para garantir a qualidade do produto que a Ecocork depois vai vender a outras fábricas.
Sofia recorda que desde 2012 que, com a sua empresa, Algarve Rotas, começou a aliar a produção da cortiça a uma outra atividade que também tem sido fundamental para a fábrica, e para a região: o turismo. Uma visita pode demorar uma hora e é essencialmente dirigida para o interior desta fábrica. Aqui, os visitantes podem contar hoje com duas salas para o visionamento de um filme, em cinco línguas diferentes. Depois desta introdução, e acompanhados por um guia que faz a interpretação do espaço, os visitantes podem também aceder a uma série de workshops, desde a pintura em azulejos sobre cortiça, bijuteria, porta-chaves, cestaria, molduras, entre outras possibilidades. Outras sugestões podem passar por sair da fábrica e ir diretamente ao sobreiro, onde os visitantes podem assistir à extração da cortiça. Além disso, tendo a sustentabilidade ambiental como preocupação constante, a Ecocork também participa em algumas campanhas de plantação e reflorestação de sobreiros com empresas.
A visita não requer reserva, sendo que se realiza de segunda a sexta-feira, às 11H30 da manhã.
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